Contemporâneo, Tradicional, Litúrgico ou Nada Disso?

Secretaria de Música e Liturgia
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As definições dos conceitos litúrgicos do título podem ser caricatas, mas, em linhas gerais, temos que defini-los para que haja um norte no entendimento do que vamos expor aqui. Quero retomar o cenário descrito em “As roupas no nosso culto”, texto meu para esta coluna, publicado em maio de 2016: “Do que tenho conhecido, identifico três estilos litúrgicos que se refletem nas roupas usadas no culto. [...] No primeiro, teríamos um(a) pastor(a) usando toga com uma estola na cor litúrgica, o coral também usaria uma toga com um detalhe na cor litúrgica e os presbíteros, terno e gravata ou, em raros casos, uma toga simples. No segundo, o pastor estaria de terno e gravata, no caso de ser uma pastora, de tailleur; os presbíteros estariam de terno e gravata ou, em alguns casos, apenas de camisa e calça social; o coral, de traje social. No terceiro, o(a) pastor(a) estaria vestido(a) num estilo social-esportivo, os presbíteros e o coral da mesma forma”.

As definições, por si só, nos trariam tantos desdobramentos que elas se diluiriam; mas quero manter em foco esses três termos, para vermos que aqueles que se enquadram em uma só forma acabam por se limitar na expressão de fé no culto.

A liturgia como expressão comunitária:

O Professor Nelson Kirst, no fascículo 1 da Série Colmeia, intitulado “Nossa liturgia: das origens até hoje” (Editora Sinodal), faz uma importante observação:

O encontro da comunidade com Deus no culto não é simplesmente da responsabilidade do pastor ou da pastora. O encontro da comunidade com Deus no culto é responsabilidade da comunidade toda e de cada uma das pessoas que fazem parte dela.

A maneira como a comunidade cultua é determinada pelo tripé História da comunidade, Princípios Bíblicos, Fidelidade Teológica. Tais princípios devem nortear a maneira como a comunidade se coloca, junta, diante de Deus para cultuar. Esse tripé garante a fidelidade aos princípios cristãos de culto a Deus. A História da comunidade fará com que o povo contemple o agir de Deus ao longo de sua história. Os Princípios Bíblicos são essenciais para a existência de qualquer comunidade cristã. A Fidelidade Teológica nos faz lembrar que não somos comunidade isolada, mas pertencemos a uma família da fé, que crê, vive e professa a fé em Cristo Jesus com base nos princípios reformados. Esse tripé precisa ser observado e cultivado quando pastores e pastoras, constitucionalmente responsáveis pelo culto, se debruçam sobre como o rebanho que Jesus lhes confiou irá cultuar a Deus.

Não engesse:

Não importa o estilo do culto de sua igreja. Não engesse. Não permita que as predefinições de estilo e forma venham a travar ou impedir que haja outros tipos de manifestações de culto a Deus. Dou como exemplo a 1a IPI de Belém, uma comunidade litúrgica que em seus 110 anos celebrou ao ritmo do carimbó o agir de Deus no meio deles. Já participei de cultos tradicionais em que houve momentos profundamente litúrgicos. Não permita que o estilo do culto retire a oportunidade de conhecer e agregar elementos ricos para o culto a Deus.

Não se perca:

Por outro lado, não se perca. A manutenção e cultivo do tripé que citamos acima é necessária para que não se vá de um extremo ao outro. O culto é expressão comunitária, mas não é uma página em branco onde se escreve o que se quer. Existem princípios bíblicos que o norteiam, existem princípios teológicos e a história da comunidade que o cercam. Ao introduzir elementos ou elementos novos ao culto, saiba a razão clara de fazê-lo e explique a comunidade por que está fazendo. O culto não é expressão do bel-prazer da liderança, mas sim a expressão da comunidade, e a liderança da igreja não lidera sozinha, mas sim sob a tutela das ordens de Cristo e submissa ao que o Senhor da Igreja determina.

Quem somos, então?

Somos muitos. Somos diversos. Esta diversidade litúrgica da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil é, na minha singela opinião, uma de suas maiores riquezas institucionais. O fato de termos cultos e liturgias diferentes não nos torna menos ou mais fiéis, nos torna mais próximos da diversidade de expressões com as quais Deus deve ser adorado e expressa a história de nossas comunidades. O que se deve ter, no entanto, é o cuidado para que a diversidade não nos afaste da fidelidade teológica e dos princípios bíblicos. E isso vale para contemporâneos, tradicionais e litúrgicos.

Rev. Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia da IPIB