Que falta faz a Ceia?

Secretaria de Música e Liturgia
Tipografia

É prática recorrente no meio Reformado brasileiro a Ceia do Senhor ser celebrada uma única vez por mês. Em algumas Igrejas, no entanto, ela é celebrada duas vezes e em outras, todos os domingos.

Afinal, que falta faz a ceia nos demais domingo que não a celebramos? A pergunta não é minha nem é recente. Em um artigo na revista Estudos da Religião de outubro de 1985, o pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil – IELB - Rudi Zimmer faz a pergunta: Com a quase eliminação da Santa Ceia do culto perdeu-se realmente alguma coisa? É respondendo a esta pergunta que quero refletir com vocês a razão de ser da Santa Ceia.

Por que celebramos a Ceia?

E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Atos 2.42

No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite. Atos 20.7

Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. 1 Coríntios 11:20

Por si só os textos acima já nos revelam uma grande verdade: a Ceia era celebrada em todos os encontros da comunidade cristã. Atos 20.7 nos diz ainda que a reunião no primeiro dia da semana era para esse fim. A celebração da Ceia foi instituída pelo Senhor Jesus. Mais que um memorial, é a presença do próprio Cristo conosco. A celebramos por ordem de Jesus. O sacramento da Ceia é o sacramento da comunhão.

Já nos tempos de 1 Coríntios temos os abusos na prática da refeição da Ceia, o que foi levando as comunidades a reduzir em volume os alimentos e a prática. Entre os Séculos V e a Reforma Protestante a prática era de se celebrar a Ceia apenas três vezes ao ano. Na Reforma, Lutero retoma a prática semanal. Os Anglicanos seguem tal prática. Entre os Reformados, no entanto, tal prática passa a quatro vezes por ano, muito por influência de Zuinglio e não de Calvino, que expressamente queria a celebração da Ceia do Senhor em todos os cultos. Com o decorrer do tempo, passaram a celebrar a Ceia mensalmente.

Semanal ou mensal?

Afinal, qual a necessidade de se celebrar a Ceia mensal ou semanalmente. A resposta a esta pergunta está na compreensão que a comunidade tem da Ceia do Senhor. Infelizmente, a conceituação de Zuinglio tem mais força que a de Calvino em nosso meio. Para muitos cristãos, a Ceia é mero memorial, portanto, não possui em si o status e condição de sacramento. É o Rev. Carlos Jeremias Klein, em Sacramentos da Tradição Reformada, que nos lembra o conceito de Calvino de sacramento:

Para Calvino, um sacramento “é o sinal externo mediante o qual o Senhor nos sela à consciência as promessas de sua benevolência para conosco, a fim de suster-nos a fraqueza de nossa fé, e nós, de nossa parte, atestamos nossa piedade para com ele, tanto diante dele, dos anjos, quanto dos homens”

Calvino reconhece apenas dois sacramentos: Ceia e Batismo, e ambos são meios de graça. Sendo meios de graça, recorro ao Rev. Alfredo Borges Teixeira, citado nas Ordenações Litúrgicas, para definição:

Chamam-se meios de graça os recursos de que o homem pode se utilizar para pôr-se em contato com Deus e obter as suas graças ou bênçãos. Esses meios, todos fornecidos pelo próprio Deus, são: a Palavra, os Sacramentos e a Oração.

Gustaf Aulén afirma que “Nos meios de graça, Deus não concede certas dádivas meramente. Deus se dá a si mesmo” Tal definição nos coloca diante da necessidade da celebração da Ceia. Qual a importância dos meios de graça para a sua comunidade? Se pela oração e pela Palavra somos abençoados, a Ceia é dispensável? Um meio de graça elimina o outro? Ou eles se complementam? Tal resposta não cabe a mim dá-la, mas sim uma análise profunda, em comunidade, do que é a Ceia para sua Igreja e como vocês a entendem. Se tanto na oração quanto na Palavra, Deus se dá de si mesmo, e nós a praticamos dominicalmente, por que não praticamos a Ceia?

Fica a reflexão e a provocação. Mais que um memorial, a Ceia é a presença do próprio Cristo conosco. Mais que uma mesa exclusiva, é a mesa do Senhor, onde todos são convidados a participar e dela tomar parte. Mais que um rito, é o sacramento da comunhão do povo com o seu Senhor, que se doa e se entrega por amor de nós. E aí? Que falta faz a ceia na sua Igreja?

 

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.