Pode música não cristã no culto?

Secretaria de Música e Liturgia
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Eis aqui um tema que vai gerar muita controvérsia. O objetivo deste artigo não é fechar questão, mas sim lançar luzes sobre a necessidade ou não de se recorrer a canções que não são cristãs no ambiente de culto.

Diálogo

Remonta desde os tempos de Jesus o diálogo entre a fé e a cultura vigente. O que são as parábolas, se não este diálogo com o dia a dia do povo? Paulo também faz uso desse recurso em suas cartas. É inegável que o cristianismo deve dialogar com seu tempo, sempre com o propósito do Evangelho atingir o maior número possível de pessoas.

Tal diálogo, no entanto, não deve ser despropositado. Há muito o que estabelecer de links entre a cultura em geral, não apenas música, mas nas artes cênicas, visuais, plásticas, etc. Estabelecer tal diálogo é necessário. Em “Engolidos pela cultura pop” (Editora Ultimato) Steve Turner mostra a necessidade de os cristãos estarem inseridos em todas as áreas da cultura e produzindo material de qualidade. “Muita arte cristã ruim é feita por cristãos que pensam ser despenseiros das respostas para os grandes problemas da vida”. Isso não justifica ter que recorrer a canções de fora do cancioneiro cristão. No entanto, a qualidade musical e de poesia devem ser buscadas em nossas composições.

As bases do diálogo devem ser lançadas sempre da Palavra em relação à canção. Apenas como exemplo, cito duas canções que já trabalhei em ambiente de culto, durante a mensagem, tendo como base Apocalipse 21 e 22. A primeira, Vilarejo, de Marisa Monte

Pra acalmar o coração, lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe, paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal, frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonhos semeando o mundo real

Quando ouço tal canção, vejo aqui a cidade santa, um lugar onde mães e heróis vivem, onde frutas são abundantes e onde os sonhos de dias de paz se concretizam. A letra, com quase toda certeza, não foi escrita nesta perspectiva, no entanto, me apropriei da mesma para fazer o link.

Outra canção que usei neste mesmo momento foi Dias melhores, do J.Quest

Vivemos esperando o dia em que seremos melhores
Melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo

Fazendo o link com o dia em que não teremos mais choro, nem dor, e tudo será consumado em Cristo. Dias melhores podemos viver hoje em Cristo. Mais uma vez, a letra, com quase toda certeza, não foi escrita nesta perspectiva, no entanto, me apropriei da mesma para fazer o link. A relação é possível, pode-se ler a letra ou cantar a canção, seja com a comunidade ou não, mas não se pode cantar por cantar, deve-se sempre relacionar o que nós vemos nessa canção, tal qual Paulo fez ao ver o altar “Ao deus desconhecido” e fez a relação com Deus e Senhor.

Recomendações

O uso da música não cristã no culto não é uma novidade de nosso tempo. O cancioneiro cristão possuí diversos hinos que eram tocados por artistas populares dos séculos XVII, XVIII, XIX e que foram adaptados com letas cristãs. Quando pegamos músicas do nosso tempo e fazemos uma releitura de seus significados, imprimindo um conceito cristão sobre ela, como fiz acima, o prelúdio de tal canção deve ser sempre uma palavra de orientação à comunidade. Exceto se sua comunidade já esteja habituada a este tipo de leitura. Há diversas canções, tanto mais conhecidas, quanto de nicho de mercado, que encontram paralelos bíblicos significantes e que auxiliaram no louvor e adoração a Deus e também na proclamação do Evangelho.

E graças te damos pela vida
Pela oportunidade de cantar e ser ouvida
Graças te damos pelo amor
Esperança que inspira, luta contra o opressor

Damos graças e louvores, agradecemos independente das dores
(Marina Peralta, Agradece)

Respondendo

Pode música não cristã no culto? Pode, não vejo problema, desde que haja sempre a orientação e direção pastoral na condução do preparo e inserção deste conteúdo no culto. Nunca se pode inserir qualquer elemento cultural alheio ao cristianismo sem a devida contextualização, o que pode gerar escândalo e mais polêmica que agregar. Em todo caso, o bom senso e a oração devem preceder a escolha e aplicação de tais conteúdos.

 

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP
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