A prática da oração

Secretaria de Música e Liturgia
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Se eu fosse tão dedicado à oração quanto o cachorro de Peter Weller se entrega à comida, hoje mesmo minhas orações seriam capazes de trazer o Dia do Juízo; esse cachorro não pensa em mais nada o dia inteiro além de lamber sua tigela. (Martinho Lutero)

 

A frase de Martinho Lutero está num contexto bastante interessante. Ele versava sobre a importância da oração e o quanto cristão deveria se dedicar a ela como forma de se relacionar com Deus. Buscando uma forma de exemplificar esta dedicação, Lutero usa a imagem do cachorro a lamber totalmente a tigela de comida com voracidade. Esta dedicação a fazer o que se tem prazer é que faz Lutero proferir sua frase, que é um desafio a nos apaixonarmos de tal forma pela oração que seríamos capazes de contemplar o que nosso coração mais deseja: a volta de Cristo, aqui posto como o Dia do Juízo.

A vida de oração de Lutero é registrada por diversos biógrafos. O mais interessante é notar que Lutero tinha hábitos bem marcados quanto à oração. Quando se dirigia ao seu quarto para orar, diariamente, fazia uso constantemente da oração do Pai Nosso. Por vezes, orava os Dez Mandamentos, por outras orava sobre um ou outro assunto mais específico, no entanto, a base de sua vida de oração foi a oração que o Senhor Jesus nos ensinou. Não é impressionante pensar que um dos homens que mudou a história, o fez orando o Pai Nosso? Uma oração que muitos reclamam quando feita semanalmente em nossas igrejas, chamam de repetição mecânica, reza, não a praticam por puro preconceito.

Muitas vezes fui levado à oração pela irresistível convicção de que este era o único lugar para onde podia ir. (Martinho Lutero)

Interessante notar que Lutero considerava a oração um lugar para onde se deve ir. Isto nos coloca diante da verdade bíblica que Jesus nos ensinou de buscar um lugar, um quarto, para conversarmos com Deus. É como se Lutero estivesse nos dizendo que, diante de determinadas situações, somos levados diante de Deus, em particular, para conversarmos e nos confessarmos. A necessidade de uma conversa franca, por vezes, é urgente. Com Deus não é diferente. Ele nos chama para uma conversa, em oração, para nos orientar e apaziguar. É quando somos confrontados e confortados com sua graça e misericórdia.

Orar é estar diante de seu Deus e Pai para conversar com ele. Como um filho busca a orientação de seu pai, assim buscamos a orientação de Deus na oração. Mas a oração não é apenas para buscar orientação, nela adoramos a Deus pelo que ele fez e fará, mas principalmente pelo que ele é. Na oração confessamos nossos erros, louvamos a Deus e contamos nosso dia a dia, como numa conversa entre amigos. O que nos levará a um hábito constante de buscar a Deus não na necessidade, mas por alegria e satisfação em ser filho de Deus.

Retomo aqui uma pergunta feita lá atrás: não é impressionante pensar que um dos homens que mudou a história, o fez orando o Pai Nosso? E complemento: não impressionante que a prática deste homem, hoje, seria tida como uma prática idólatra de repetição? O que, então, difere a vã repetição, que Jesus condenou, com a prática de Lutero? O Reformador estava orando a oração que o próprio Jesus ensinou como contraponto às vãs repetições, e o fazia com seu coração posto em Deus. Esta é a diferença. Quem determina o mecanicismo não é o ambiente, mas o coração de quem ora.

Os que acusam a oração do Pai Nosso de ser mecânica, são os mesmos que fazem as orações do mesmo jeito, sem perceber que se entregaram a vãs repetições. O que me remete a Romanos 1.17, quando Lutero se depara com a sentença “O justo viverá pela fé”, que nos levará ao seu registro original, no profeta Habacuque: “Olhe para os arrogantes, os perversos que em si mesmos confiam; o justo, porém, viverá por sua fidelidade a Deus”. (Habacuque 2.4). A arrogância e a perversidade de nosso coração nos cegam diante da nossa necessidade de arrependimento e conversão. A vida de oração é uma vida de constante arrependimento e conversão.

Viver pela fé é ter a certeza que a vida de oração é mais que necessária para nossa vida. Uma das marcas da Reforma foi ter tirado a oração das mãos dos mercadores da fé e colocado nas mãos dos que andavam oprimidos e perdidos em sua cegueira espiritual. A Igreja confinou Jesus ao sacrário, ao altar, a Reforma jogou no chão tal mentira, levando a Igreja de Cristo a olhar novamente para Deus como fonte de misericórdia e perdão, e não exclusivamente de punição e condenação. A vida de oração é uma vida de contato direto com Deus, esta verdade foi vivida pelos Reformadores e é um desafio para vivermos hoje.

Pela Coroa Real do Salvador

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
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