Tem sido cada vez mais frequente cultos suprimirem elementos e momentos da liturgia Reformada e adaptado ao que chamam de nova realidade. Um destes momentos que tem sido suprimido é a confissão. Preocupa-me tal supressão por um simples motivo, apontado pelo Diretório de Culto da IPI do Brasil:

O Cantai Todos os Povos é o hinário oficial da IPI do Brasil. Estamos na reta final do processo de publicação da edição revisada e em breve o teremos em mãos para uso em nossas igrejas. Pensando nisso, listo aqui 8 razões pelas quais a sua igreja deve adotar o Cantai Todos os Povos. Não se trata de deixar de lado tudo o que se canta hoje, mas sim de acrescentar à vida da igreja a riqueza de nosso hinário.

Quais características devem compor o caráter de quem se dispõe a servir por meio da música na igreja? Todo músico precisa ter consciência que sua vida e testemunho são parte integrante de seu ofício na igreja. Não há como desassociar a vida e a função de músico na Igreja. Tomando por base o texto de Efésios 4.1-3, extrairemos algumas características que todo cristão, inclusive os músicos, devem cultivar em seu caráter.

As definições dos conceitos litúrgicos do título podem ser caricatas, mas, em linhas gerais, temos que defini-los para que haja um norte no entendimento do que vamos expor aqui. Quero retomar o cenário descrito em “As roupas no nosso culto”, texto meu para esta coluna, publicado em maio de 2016: “Do que tenho conhecido, identifico três estilos litúrgicos que se refletem nas roupas usadas no culto. [...] No primeiro, teríamos um(a) pastor(a) usando toga com uma estola na cor litúrgica, o coral também usaria uma toga com um detalhe na cor litúrgica e os presbíteros, terno e gravata ou, em raros casos, uma toga simples. No segundo, o pastor estaria de terno e gravata, no caso de ser uma pastora, de tailleur; os presbíteros estariam de terno e gravata ou, em alguns casos, apenas de camisa e calça social; o coral, de traje social. No terceiro, o(a) pastor(a) estaria vestido(a) num estilo social-esportivo, os presbíteros e o coral da mesma forma”.

O hábito de cantar em louvor a Deus perpassa toda a narrativa bíblica. Poderia aqui apontar diversos textos nos quais homens e mulheres são descritos cantando. Jesus também cantava em louvor a Deus. Vemos no texto da última ceia que eles saem cantando para o Monte das Oliveiras. No contexto do culto, a música sempre se fez presente. O que vamos pontuar aqui são as características e a forma como as músicas devem, biblicamente, conduzir o povo a adorar a Deus.

Adoração e Louvor

A função da música é conduzir o povo a louvar e adorar. Quando olhamos para a Bíblia, vemos que toda canção é para louvor e adoração, na maioria da vezes, comunitários. Até mesmo em cânticos solos, como o de Maria ou o de Miriam, temos ali o caráter de exaltação e louvor a Deus e a indicação de que tais cânticos são para instruir o povo a reconhecer a grandeza de Deus.

Em nossas igrejas temos as mais diversas expressões musicais. Corais, conjuntos de louvor, cantores solos e instrumentistas solos. A música, independentemente de como é interpretada, deve levar o povo a adorar a Deus. Pode ser um solo de violão ou um canto coral. Não importa, o intuito deve ser sempre levar o povo diante do altar do Senhor para reconhecer que ele, e não o músico ou a música em si, é digno de louvor e adoração.

Comunitário

O caráter da música na igreja deve sempre ser comunitário. O povo precisa e deve participar. Quando o conjunto de louvor se reúne para ensaiar, qual o critério para a escolha das músicas? Muitas vezes os conjuntos escolhem músicas que a comunidade, por mais que conheça o cântico, não canta. O conjunto insiste, insiste, e o povo não canta, não se identifica com a música, embora a letra seja bíblica, seja uma boa composição e tenha ritmo agradável. Por que isso acontece? Porque a comunidade é quem se expressa em louvor e adoração. Por mais que haja a condução do conjunto e a orientação pastoral como responsável pela música na igreja, a comunidade se expressa sobre como ela quer louvar a Deus. O mesmo acontece com corais e demais conjuntos. Quem serve a Deus no ministério da música precisa estar atento à expressão da comunidade diante das canções entoadas. Lembrando o tópico anterior: tudo, absolutamente tudo, deve ser para conduzir o povo a adorar a Deus.

Diversidade

A diversidade musical da Igreja é sempre bem-vinda. Diversidade de estilos musicais, de instrumentos e de cânticos. O reverendo Bruno Bürki, no artigo sobre culto no contexto reformado, publicado no Manual de Ciência Litúrgica, Volume I (Editora Sinodal, EST, São Leopoldo, 2011), apresenta alguns exemplos de como a Igreja na Suíça vem renovando sua forma de louvar a Deus, contextualizando seus cânticos tradicionais e buscando novas expressões de louvor. Ele também destaca a renovação musical pela qual vêm passando as Igrejas Reformadas no continente africano:

“O que, devido a certas inibições, vem acontecendo de maneira tímida na Suíça, é realidade em algumas igrejas da África, mesmo as de confissão Reformada ou Presbiteriana. Principalmente os numerosos coros que participam de cada culto, juntando muitas cantoras e cantores, jovens e idosos, fazem com que a reunião da comunidade seja tomada de vibrante entusiasmo. A improvisação é um elemento importante. Música originalmente africana é mesclada, às vezes, com melodias europeias ou americanas. Com isso e graças a uma considerável aculturação no contexto africano, o culto adquire um caráter espontâneo e festivo que é surpreendente na Comunhão Reformada”.

O que queremos mostrar com o exemplo apontado por Bürki é que a Igreja tem a possibilidade de se expressar musicalmente de maneira diversa, fazendo com que a comunidade seja expressão viva do louvor a Deus, revelado em músicas que falam a verdade do Evangelho com o jeito da comunidade.

As músicas no nosso culto devem levar o povo a adorar a Deus sempre, sem exceção. Se qualquer canção faz olhar mais para a qualidade do instrumentista, para a beleza da voz que canta ou a técnica musical, tome cuidado. Não quero dizer com isso que os músicos não devem se esmerar em tocar o seu melhor para Deus, mas sim que junto à técnica, há o caráter do músico que deve ser moldado ao caráter de Jesus.

As músicas em nosso culto devem ser expressão da realidade comunitária, contextualizadas musicalmente e conduzindo o povo a adorar em espírito, verdade e conectados à realidade de sua comunidade. As músicas em nosso culto devem ser diversas em seus ritmos e formas, para que haja integração social e alcancem as pessoas, conduzindo-as a louvar a Deus com as mais diversas expressões de louvor. Dediquemo-nos a produzir cada vez mais, com criatividade e fidelidade bíblica, as canções com que nossas comunidades louvam.

Rev. Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP

 

Por que o culto é como é? A IPI do Brasil possuí uma diversidade litúrgica enorme. Em algumas de nossas Igrejas a palavra liturgia é abominada, em outras, é exaltada. Controvérsias à parte, precisamos compreender que a ordem do culto é moldada conforme a realidade da comunidade. Cada comunidade local cultua e expressa sua fé de acordo com sua relação com Deus, fundamentada na Palavra, na história da comunidade e na história cristã. Precisamos compreender a diferença de Culto e Liturgia e como ambos se relacionam.

Mais Artigos...

Página 2 de 3