A Arte de Saber Pedir

Evangelização
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“O que se pede? A quem se pede? Para que se pede? “Pede-me e eu te darei as nações por herança e os confins da terra por tua possessão” (Sl 2.8). A oração do salmista poderia ser reivindicada como uma declaração triunfalista ou mesmo como uma fundamentação da Teologia da Prosperidade. Mas, nessa breve reflexão, gostaria que fizéssemos uma leitura dessa porção da Escritura na perspectiva missionária. Entre os anos de 1513 a 1572 viveu John Knox, o conhecido reformador escocês. Sua oração e sua prática de vida se confundiam. Por isso ele orava: “Senhor, dá-me a Escócia, senão eu morro”. Na oração de Knox temos uma versão do Salmo 2, vários séculos depois. Com a intensidade com que ele orava pela Escócia, também trabalhava exaustivamente para ver uma nação convertida e presbiteriana.

Na carta de Tiago 4.3, lemos: “Pedi e não recebeis, porque pedis mal”. Tiago sinaliza que há uma grande possibilidade de não recebermos aquilo que pedimos, em função da motivação com que pedimos.

Nessa introdução temos três abordagens que enfatizam o “pedir” alguma coisa. Quero lhe convidar a refletir sobre o pedido de John Knox. O que ele pede? A Escócia, um país, uma nação inteira. Parece um pedido que chega ao limiar do absurdo. Mas, qual a motivação quando ele pede essa nação ao Senhor? Vale lembrar que Knox sonhava e trabalhava por uma Escócia convertida aos pés do único e verdadeiro Deus. Ele tinha tanta convicção nessa forma de orar que fez uma declaração intensa e de comprometimento: “Senão eu morro”.

Talvez nos falte essa oração, enquanto homens e mulheres enviados, estes sim, os verdadeiros apóstolos. A oração que arrisca a própria vida. Apenas como exemplo: “Senhor, dá-me o Amazonas, senão eu morro”; “Senhor, dá-me São Mateus/ES, senão eu morro”; “Senhor, dá-me Cajazeiras/PB, senão eu morro”; “Senhor, dá-me Santa Maria/RS, senão eu morro”; “Senhor, dá-me Tarija (na Bolívia), senão em morro”.

Será que pedir ao Senhor a cidade onde servimos é pedir demais? Será que Deus se interessa por esse tipo de oração? Pedir a Deus uma ou mais cidades, significa que elas serão inteiramente convertidas ao evangelho de Jesus Cristo? Não necessariamente, mas se essas cidades onde Deus nos colocou para sermos suas testemunhas forem marcadas pelos valores do Reino de Deus e se estabelecermos uma igreja relevante e abençoadora, podemos crer que Deus atendeu a nossa oração.

Mas qual a motivação do nosso pedido? Queremos ter uma igreja grande ou uma grande igreja? Queremos ser conhecidos pelo nosso poder político ou pelo quanto influenciamos com libertação as estruturas pecaminosas e demoníacas da cidade?

Penso que quando se pede uma cidade a Deus como possessão ou herança, o que se está pedindo são famílias restauradas e vidas transformadas pelo poder da mensagem da cruz, e não controle sobre os sistemas políticos e sociais da cidade.

O pedido de Knox tem todo sentido, pois ele pede aquilo que Deus quer fazer. Deus sempre deseja alcançar o homem e a mulher perdidos. Deus envia seu Filho para morrer por uma humanidade perdida. O Alvo de Deus é sempre o homem, pois somente através de Cristo a imagem de Deus pode ser reconstruída na sua plenitude. Portanto, não tenho dúvidas que pedir a Deus o coração da cidade onde desempenhamos a nossa vocação é pedir bem. É pedir com arte. É pedir com sabedoria. É pedir aquilo que Deus deseja fazer, e Ele, certamente, vai nos ajudar.

Porém, quando pedimos para gastarmos conosco mesmo, como o apóstolo Tiago sinalizou, estamos pedindo errado, mal e de modo desproposital. Pedir uma cidade apenas como pretexto, para se ter um nome célebre ou uma comunidade politicamente influente, é perder o foco, o rumo e o prumo. Esse é um pedido que está embrenhado de orgulho, vaidade e múltiplas síndromes de grandeza. Infelizmente as quedas e os escândalos estão aí para quem quiser ver.

Permita-me, na finalização dessa pastoral, relatar um testemunho, e faço isso com muita consciência e temor no coração.

Fui pastor da 2a IPI de Natal por seis anos, os primeiros anos do meu ministério. Nosso tempo à frente daquela igreja teve uma forte ênfase na tarefa missionária. Certa noite de domingo, em um apelo desafiador, eu fui à frente e orei, tomando o Salmo 2 como referência. Eu disse naquela oração: “Senhor, dá-me dez cidades do sertão nordestino”. Naquela ocasião, estava muito bem no pastorado daquela igreja. Estávamos navegando em “mar de almirante”. Eu sequer pensava em sair daquele local tão confortável. Eu amava a igreja e era amado por ela. Nos meses seguintes eu continuei fazendo aquela oração, só que agora de púlpito. Pouco tempo depois fui convidado por um pastor amigo, para juntos começarmos uma nova igreja no interior do Rio Grande do Norte, na cidade de Alto do Rodrigues (1) e lá fomos nós. Pouco tempo depois, fui convidado por outro pastor amigo a iniciar uma nova igreja no sertão do Ceará, na cidade de Umarí (2) e lá fomos nós novamente. Três anos depois, foi convidado pela Secretaria de Missões (hoje Secretaria de Evangelização) para iniciar o Projeto Sertão com uma equipe de missionários e missionárias, em uma proposta de plantação de novas igrejas, e assim estabelecemos comunidades em: Patos/PB (3), São Mamede/PB (4), Malta/PB (5), Cruzeta/RN (6), Caicó/RN (7), Pombal/PB (8), Cajazeiras/PB (9). A décima cidade seria Sousa, na Paraíba. Deus nos abriu uma porta naquele lugar que talvez não tenhamos aproveitado. Hoje, todas essas cidades têm comunidades cristãs estabelecidas, e elas têm sido alento e cais para muitas famílias que andavam à deriva.

É um privilégio e grande honra para mim caminhar com vocês nesse maravilhoso sonho de estabelecer comunidades saudáveis em cidades que estão tão sedentas e famintas da água e do pão da vida. Pois eu sei o quanto uma igreja relevante pode fazer a diferença em qualquer contexto onde ela está inserida.

Rev. Jango Miranda
Secretário de Evangelização