O Discipulado e a Justificação pela Fé

Coordenadoria Nacional de Adultos
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Ensinar os fundamentos da fé de forma clara e direta é necessário para todo bom início de discipulado, infelizmente, por acreditar que as pessoas de forma automática podem aprender estes fundamentos somente ouvindo sermões ou participando da Escola Bíblica Dominical, tem gerado membros com muitas dúvidas, ou como Martyn Lloyd Jones os denomina de “cristãos miseráveis”[1], aqueles que não entenderam o caminho da salvação, já que não lhe foram explicados claramente a Justificação pela Fé que só é conseguida através de Cristo Jesus.

Minha experiência tem me levado a acreditar que a doutrina da Justificação pela Fé é um dos fundamentos mais mal ensinado e, por consequência disso, muitos cristãos que frequentam nossas igrejas ouviram que Cristo morreu por seus pecados, mas nunca chegaram a realmente reconhecer a sua absoluta necessidade pessoal disso. O propósito deste artigo é alertar sobre este descuido.

Uma triste constatação é saber de cristãos que duvidam da sua salvação. Estes compreendem que Cristo é “de algum modo” o Salvador, só que não conhecem profundamente como Jesus pode se tornar o único Salvador. Pior ainda, desconhecem o que a morte e a ressurreição de Cristo produz no ser humano pecador, como consequência disso, não encontram necessidade de um novo nascimento.

Isto gera um segundo problema, cristãos que não encontram alegria na fé cristã. Estes crentes estão a procura de outras fontes para satisfazer o vazio interior, tornando-se rebeldes com respeito à Palavra de Deus, questionando a busca da santificação em sua vida. Estão sempre perguntando se é certo fazer isto ou aquilo, mais por um mero legalismo do que realmente interessados em agradar a Deus.

Pelo fato de não entender a Justificação pela Fé, temos nas nossas igrejas cristãos que acreditam erradamente que santificação seja alcançar um grau de civilidade à moralidade exterior, ainda que seus corações continuem cheios de abominações.

Isto gera uma tendência de diminuir a seriedade do pecado e consequentemente não temos prazer em agradar a Deus. Logo somos atraídos pelo pecado, devido a que não encontramos desgosto nele, e assim se torna positivamente desejável, para finalmente justificar nossos atos pecaminosos. Se esta corrente de engano não for quebrada, criaremos um padrão de hábitos que trará muita infelicidade aos que são chamados para iluminar um mundo em trevas, “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai, que está no céu” Mt 5:16.

Acredito que o maior problema em não ensinar claramente a Justificação pela Fé, é produzir religiosos cheios de rituais, que rejeitam a Bíblia acreditando ser muito rígida e que seus princípios não se aplicam em nossa época, gostam de dizer que “as circunstâncias mudaram”. Com isto temos cristãos em nossas igrejas que misturam suas próprias ideias com verdades espirituais. Rejeitam a autoridade da Bíblia, fazendo dela um livro onde podem mudar como quiser, conforme seus gostos pessoais.

Qual é o problema com isto? É que se não consigo entender claramente qual era minha situação antes de ser salvo por Jesus, posso criar um “evangelho ético e moral” que não tem necessidade de buscar o perdão de Deus, já que não me reconheço como pecador que já está condenado.

Pessoas que não entendem a Justificação pela Fé, enxergam os valores cristãos como um ideal bonito, porém, impossível de ser alcançado nas suas vidas. Adotam parcialmente o Evangelho em vez de serem dominados totalmente por ele.

Quando ensinamos de forma correta a Justificação pela Fé, o cristão está pronto para explicar a esperança que está nele, como diz Martyn Lloyd Jones:

 

O cristão sabe por que ele é o que é, e em que pé está. A doutrina foi apresentada a ele, ele recebeu a verdade. Ela veio à sua mente e deve sempre começar em sua mente. A verdade chega à mente e ao entendimento iluminado pelo Espírito Santo. E depois que o cristão compreende a verdade, ele a ama. Ela comove o seu coração. Ele vê o que ele era, vê a vida que vinha levando, e a odeia. Se alguém enxerga a verdade quanto à sua escravidão pelo pecado, odiará a si mesmo. Depois, ao enxergar a gloriosa verdade sobre o amor de Cristo, ele vai querê-la, vai desejá-la. Assim o coração é envolvido. Enxergar a verdade realmente significa que somos comovidos por ela, que nós a amamos. Não pode ser de outra forma. Se enxergamos a verdade com clareza, vamos senti-la. E isto leva ao passo seguinte — o nosso maior desejo será praticar e viver a verdade[2].

 

Mas graças a Deus porque, embora tendo sido escravos do pecado, obedecestes de coração à forma de ensino a que fostes entregues. Romanos 6:17

 

Rev. César Ramírez
Pastor da IPI do Rio Pequeno, São Paulo-SP, e oficineiro do Frutificar


[1] LLOYD-JONES, Martyn. Depressão Espiritual. São Paulo: Editora Pés, 1996, p.24

[2] Idem. p.56