Entrevista com Diretor do Dpto. de Teologia e Missão da AIPRAL

Mundo Protestante
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Leia na íntegra entrevista feita com o Diretor do Dept. de Teologia e Missão da AIPRAL, Rev. Paulo Câmara M. P. Júnior, com a finalidade de divulgar a proposta de se celebrar uma mesma liturgia no próximo domingo. Compreenda a importância desta ação da AIPRAL, além de obter maiores detalhes sobre o material.

1. “É nessa sociedade fluida, sem utopias (...) que ainda constrói muros (...) que somos chamados a viver e a testemunhar de forma relevante a nossa fé cristã reformada”. Assim é apresentado este material pelo presidente da AIPRAL. Como o presente material litúrgico colabora neste sentido?

 

Este material vem para agregar valor às celebrações locais das igrejas reformadas de nossa região e foi elaborado visando a interação entre os membros da igreja – desde os debates numa possível classe de escola dominical, a partir dos estudos oferecidos, à uma celebração comunitária, conforme o convite deste departamento para o próximo domingo, 12/novembro, em que a igreja será convidada a participar da liturgia de forma colaborativa.

 

Acreditamos, que em tempos de individualismo e isolamento social, a igreja é uma oportunidade para se confrontar os valores de nosso tempo e de ser um espaço aberto para a presença viva de nosso Senhor Jesus Cristo. AIPRAL, através deste material, espera proporcionar um espaço de reflexão reformada a partir da comemoração dos 500 anos da Reforma Protestante.

 

Concluo, citando, Jurgen Moltmann que afirma: O individualismo da sociedade moderna sem dúvida tem traços narcisistas, porque todo indivíduo tem que estar apaixonado por si mesmo para se impor e progredir [...] O indivíduo é a perversão da pessoa. Querendo-se que homens possam viver como pessoas em corpo e alma, é preciso que descubram a dignidade divina da comunhão e procurem o futuro da comunhão (O caminho de Jesus Cristo: cristologia em dimensões messiânicas. São Paulo: Academia Cristã, 2009, p. 399).

 

2. Em que consiste o material?

 

O material é composto de três partes: estudos bíblicos a partir do tema “Renovados e renovadas pela graça de Deus”; celebração litúrgica comum; e ferramentas anexadas para colaborar com o labor pastoral em nossas igrejas locais.

 

Os estudos bíblicos foram compostos por membros da Diretoria da AIPRAL, em linguagem simples e inteligível, de modo que colabore com a reflexão cristã reformada dos membros de nossas igrejas e provoque discussões que edifiquem o corpo de Cristo.

 

A liturgia foi construída por irmãos e irmãs de nossa região, sob a condução de Gerardo Oberman. A proposta é que no próximo dia 12 de novembro celebremos a mesma liturgia, de modo que possamos nos conscientizar de que somos parte de uma família de fé maior que nossa localidade, afinal, fazemos parte da família cristã reformada latino-americana e caribenha. A liturgia é aberta, o que significa que há espaço para que os ministros e ministras escolham textos bíblicos e músicas, de acordo com a prática local. Particularmente, espero que as igrejas sintam que a liturgia é familiar e estranha, ao mesmo tempo. Familiar, pois está inserida no contexto latino-americano e faz parte de nossa tradição reformada; porém, estranha, porque pretende expressar a riqueza e pluralidade de nossas regiões.

 

Por fim, deixamos alguns documentos em anexo, como ferramentas para as igrejas locais – explicações quanto a vestimenta reformada, partituras de músicas e links, e o próprio logo deste projeto – “Renovados e renovadas pela graça de Deus”.

 

3. Como o material contempla a diversidade da família reformada latino-americana?

Buscamos envolver pessoas de diferentes regiões de nosso grande continente americano. Os estudos foram produzidos por Letty, que é do Cáucaso, e irmãos e irmãs do Conesul. Assim, existe a colaboração de mulheres e homens, jovens e adultos. Além disso, a elaboração da liturgia contou com a colaboração de pessoas da Venezuela e Colômbia, Nicarágua e México.

 

Por fim, fizemos o convite para que cada igreja local compartilhasse as celebrações locais pelos 500 anos da Reforma Protestante, através do #500ReformaAL. Nosso desejo é juntar o material compartilhado pelas igrejas locais e compartilhar a riqueza e beleza da diversidade da família de fé latino-americana.

 

4. Como atualizamos as inquietudes dos primeiros reformadores a nosso tempo e contexto? Como a herança reformada nos convida a servir no século XXI?

O movimento da Reforma Protestante afirmou muitas verdades, das quais podemos destacar os chamados cinco solas, que são uma tentativa de sumarizar importantes conceitos daquele período. Uma das afirmações mais contundentes foi a exclusividade de Cristo. Somente Cristo nos salva de toda condenação; somente Cristo nos perdoa de todo erro; somente Cristo nos conduz a comunhão com Deus.

 

A igreja cristã do século XVI, tinha muito poder e era mediadora da relação entre o homem e Deus. Tinha o poder de salvar através das indulgências, de perdoar os pecados através das penitências; de manter a comunhão dos fiéis através dos sacramentos. Naquele tempo, havia-se a ideia de que desde o nascimento até o final da vida a pessoa estava protegida – estando quite com a igreja, estaria em comunhão com Deus.

 

Naquele contexto, o solus Christus era, no mínimo, confrontador. Em nosso tempo, essa mesma afirmação tem sido contestada. Afirmar a exclusividade de Cristo pode soar reducionista e prepotente.

 

A verdade bíblica é que Deus havia feito uma promessa a Abraão, em Gn 12 e 15. E o Senhor Jesus cumpriu essa promessa na cruz do Calvário – para que, em Cristo Jesus, a benção que Deus prometeu a Abraão chegasse também aos gentios, isto é, eu e você, para que recebêssemos a promessa do Espírito Santo, mediante a fé (Gl 3.14)

 

A herança reformada é, sim, muito importante e contundente para nosso tempo. Os 500 anos não são apenas uma história. A Reforma aponta para a grandeza de Cristo e isso deve continuar vivo em nós, pois o sacrifício de Jesus é suficiente para mim e você.

 

Em tempos de oração forte, em tempos de boas obras para se ganhar o amor de Deus, em tempos de mercado religioso, em tempos de crise nas igrejas locais com a queda da membresia, em tempos de ministros e ministras carismáticos que centralizam a condução da igreja, precisamos nos lembrar de que Jesus é o Senhor da igreja.

 

E o que cabe a nós? Olhar para as pessoas que não seguem a Cristo com tom de superioridade? Não! Devemos caçoar de suas crenças? Não! Devemos condenar as pessoas? Não! Se eu e você sabemos que só existe um mediador entre Deus e os homens, então façamos com que este Cristo seja conhecido, afinal, aí de mim se não pregar o Evangelho. Somos, sim, convidados a fazer Cristo ser conhecido pelas pessoas que não conhecem a Palavra Viva!

 

5. Como podemos nos sentir “renovados e renovadas” como Aliança?

A Aliança é formada por pessoas que compartilham a fé em Cristo, a partir da base reformada. Somos rebanho do pastoreio divino e devemos, dentro do possível, compartilhar a adoração ao Senhor e o serviço ao próximo em nosso continente, lutando pela justiça e a libertação em nossas pátrias.

 

Quando estamos juntos abrimos espaço para a revelação divina. Veja, o evangelho de Lucas 3.13-35 narra a história de dois discípulos que estavam tristes com a morte de Cristo e voltavam para sua terra, em Emaús. No início da perícope, o texto destaca que os dois discípulos decidiram permanecer juntos. Eles estavam angustiados e frustrados, mas enfrentaram a luta juntos; e, na medida em que ficaram juntos, abriram o coração um para o outro e isso criou espaço para Cristo se revelar.

 

Então, no meio da narrativa, Jesus aparece, inicialmente, como um estranho, depois se torna um amigo. Quando chegam na aldeia, decidem convidar Jesus para se juntar a eles. Então, se tornam uma comunidade não mais de dois, mas de três pessoas. E, quando estão juntos, não separados, no momento da refeição, é dito que eles o reconheceram. É isso que diz o versículo 31 – os olhos deles foram abertos e eles o reconheceram.

 

Existe algo muito precioso neste texto. No início eles estão na presença de Jesus, mas não tinham consciência disso. Deus lhes abriu o entendimento. É o Senhor. Assim, todas as vezes que vamos em direção à comunidade, criamos espaço para a manifestação de Deus. Todas as vezes, em que lutamos para manter a comunidade unida, criamos espaço para a manifestação da presença de Deus. Quando permanecemos juntos podemos sentir a presença do Senhor. Este é o renovo, por isso acredito ser fundamental o esforço para nos mantermos unidos. Precisamos fazer um voto de permanecer juntos. A Aliança trabalha neste sentido!

 

Baixe aqui a versão em português da Liturgia para o dia 12/11