Como Será o Ano Novo?

Palavra da Diretoria
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Estamos iniciando um novo ano, e, com ele, as esperanças se renovam para que seja bem melhor que o ano ora findo. Com certeza, 2016 para muitos não deixará saudades. Os acontecimentos políticos, as dificuldades econômicas agravadas, o aumento do desemprego, desastres de toda sorte, eleições e decepções políticas, a desconfiança acentuada nas instituições, as mortes de famosos e inocentes, atentados terroristas, enfim a lista é grande, fazem de 2016 um ano com memórias negativas. Talvez pudéssemos enumerar poucos acontecimentos que nos trarão saudades. Contudo não podemos deixar de perguntar: a simples mudança do ano fará que as coisas mudem por si mesmas? Que temos pela frente no próximo ano além da esperança que visualizamos no nosso horizonte? Em 2017 estaremos celebrando os 500 anos da Reforma Protestante. Quais os significados dessa data? Antes de tentar responder essa questão, vamos rememorar alguns fatos.

A igreja cristã, logo após a conversão de Constantino (A.D. 313), iniciou um processo de distanciamento das suas origens, incorporando, ao longo dos anos, práticas estranhas às Escrituras. Muitas delas, embora não fundamentadas nas Escrituras, eram sustentadas pela tradição e pelo ensino da igreja (magistério eclesiástico). O senso comum diz que Lutero realizou a Reforma da igreja no dia 31/10/1517 ao afixar, nas portas da Catedral de Wittenberg (Alemanha), as 95 teses. Contudo tal compreensão não procede. Houve um longo processo em que muitos se levantaram protestando e pagando com a própria vida contra esse estado de degradação e corrupção espiritual.

Podemos mencionar brevemente o movimento dos Valdenses, seguidores de Pedro Valdo (1140-1217), os quais foram cruelmente perseguidos por afirmarem a autoridade das Escrituras, entre outras coisas. Na Inglaterra, John Wycliff (1325-1384) foi uma das mais notáveis vozes que se levantaram, estendendo sua influência sobretudo sobre Jan Huss (1369-1415). Wycliff, mesmo como clérigo, rejeitava a autoridade tradicional da igreja, afirmando ser a Escritura a mais alta autoridade para o cristão, bem como o seu padrão de fé. Rejeitava o dogma da transubstanciação e empenhou-se na tradução da Vulgata para a língua inglesa. Jan Huss, na Boêmia (atual República Tcheca), abraçou as teses de Wycliff sobre a centralidade da Escritura como regra para o cristão, por isso mesmo se tornou crítico do estado da igreja e dos clérigos, afirmando ser Cristo o único cabeça da igreja, devendo a igreja descartar todas as tradições extrabíblicas. Condenado pela igreja, à exemplo de Wycliff, foi queimado vivo. Wycliff fora condenado como herege e, mesmo após a morte, seus ossos exumados e queimados.

Essas sementes produziram muitos frutos. Na Inglaterra de Wycllif, seus seguidores foram denominados de “Lolardos”, e os de Huss, os “Irmãos Boêmios”, base do futuro movimento dos moravianos. Sobre Jan Huss, conta-se que antes da sua execução na fogueira ele disse: “Vocês hoje estão queimando um ganso (Huss significa "ganso"), mas dentro de um século, encontrar-se-ão com um cisne. E este cisne vocês não poderão queimar". Costuma-se identificar este “cisne” com Lutero que, 102 anos depois, pregou suas 95 teses em Wittenberg. Portanto, quando Lutero entrou em cena, já havia uma série de movimentos e tentativas de reforma da igreja, e o anseio por mudança não estava apenas no âmbito religioso. O sistema político e econômico feudal, alicerçado no poder religioso, dava sinais claros de esgotamento, e os anseios por mudanças vinham também de outros setores. Um ambiente político favorável, principalmente na Alemanha, em muito contribui para a proteção de Lutero diante das ameaças de morte e consequentemente para a expansão da Reforma também na Suíça, França, Inglaterra e Holanda.

Lutero, inicialmente destinado pelo pai ao estudo do direito, passa por uma experiência dramática em meio a uma tempestade quando suplica a Santa Ana que o livre, fazendo um voto de tornar-se um monge, o que de fato aconteceu. Entrou para a ordem dos agostinianos e ali aflorou uma alma profundamente perturbada pelos seus pecados, que tenta vencê-los com sucessivas penitências, jejuns, vigílias e orações, contudo sem sucesso. Foi professor de Bíblia no estudo dos Salmos, Romanos, Gálatas, livros decisivos na sua conversão, pelos quais entendeu que Deus nos aceita e nos justifica mediante a fé em Cristo. Ele entendeu que o “justo viverá pela fé” (Rm 1.17) e não por obras meritórias, pois o Deus que é justo e demanda justiça é o mesmo que nos justifica. Sobre isso, Lutero assim se expressou “as portas do paraíso se me abriram...!”. Esta nova compreensão a respeito do relacionamento com Deus, baseado na fé em Cristo, representou uma revolução pessoal e teológica. Era a redescoberta do ensino paulino e agostiniano sobre a graça.

Não cabe aqui neste espaço fazer um levantamento histórico exaustivo nem uma avaliação teológica mais detalhada. No curso deste ano, ao celebrarmos os 500 anos da Reforma, outros textos se seguirão, contudo, queremos destacar alguns pontos importantes nesse início de novo ano. Os grandes acontecimentos que marcaram aquele período e culminaram com a Reforma estão todos relacionados com as Escrituras. Wycliff lutou para colocar a Bíblia nas mãos do povo inglês, ressaltou a sua supremacia e importância na vida do cristão como guia acima de todas as tradições e costumes. Jan Huss ressaltava também a centralidade das Escrituras e, impactado por ela, pregava destemidamente a necessidade de uma reforma na vida eclesiástica. A ameaça do martírio não o fez recuar. Lutero foi profundamente impactado pelas Escrituras e somente com base no seu ensino encontrou paz para sua alma atormentada diante de um Deus que demandava justiça e retidão. Essas mesmas convicções o mantiveram durante toda sua vida.

Um segundo elemento a ser observado é a disposição para viver o ensino das Escrituras. Disposição para viver e morrer. Lutero, quando desafiado na “Assembleia de Worms” pelo emissário papal, na presença do Imperador, reafirmou corajosamente: “A não ser que eu seja convencido pela Escritura ou pela simples razão – eu não aceito a autoridade do papa e dos concílios porque eles têm sido contraditórios –, minha consciência está cativa pela Palavra de Deus, portanto não posso, nem devo retratar-me de qualquer coisa porque não é certo nem seguro. Outra coisa não posso, e que Deus me ajude!”. Era a sua resposta ao representante papal que lhe exortava a abrir mão da sua consciência e ficar sob a segurança da igreja. Esta disposição sacrificial fez toda diferença no seu tempo, e a ela se seguiram, cada um a seu modo, Zwinglio, Melanchton, Calvino, Bucer, Farel e tantos outros deixando legados preciosos e inspiradores.

Diante de um novo ano, em que estaremos celebrando tão importante movimento, não podemos simplesmente fazer uma simples retrospectiva histórica sem refletir nas atitudes que tantos homens e mulheres resolveram assumir, pagando um alto preço pela fidelidade às Escrituras. Foram capturados por uma nova compreensão e por ela viveram plenamente. Um novo ano não será diferente apenas pela mudança no calendário. Precisamos mais que celebrar um novo ano, incorporar novas atitudes para viver intensamente a Palavra de Deus. Um cristianismo que não se entrega, que não se dispõe a viver sacrificialmente, que não coloca a Palavra como autoridade última em nossa vida, se torna inócuo e um mero sistema religioso. Somos herdeiros de uma preciosa herança, vivemos um tempo sui generis de muitas oportunidades. Nossa oração é que, como IPIB, vivamos intensamente o novo ano, cativos pela Palavra!

Rev. Áureo R. Oliveira

Presidente da AG