Compromisso Doutrinário

Série 2016 - Fidelidade
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Uma história ilustrativa

Há algum tempo atrás, ao tomar um táxi em São Paulo, iniciei um diálogo, como sempre faço, com o motorista, ao observar que havia um carnê de contribuição de uma igreja neopentecostal exposto. Comecei a perguntar sobre sua experiência naquela igreja, quando então ousei lhe pedir sua opinião sobre uma controvérsia entre dois líderes, um da sua igreja e outro de uma grande denominação também neopentecostal. Como o assunto era objeto de reportagens, ataques mútuos e denúncias de mau uso de dinheiro, etc., eu lhe perguntei: “O que você acha disso?”. E ele não hesitou: “Tudo farinha do mesmo saco... É o roto falando do esfarrapado!”. Diante do meu espanto ele emendou: “Não estou nem aí para eles... eu quero saber é de alcançar minha bênção!”. No caso, a bênção era uma casa própria.

VELHAS ATITUDES

Refletindo sobre essa história e analisando alguns acontecimentos, percebo que sua atitude, de certo modo, espelha uma realidade muito comum em nosso tempo. Percebe-se que há um pragmatismo disseminado em todas as áreas da vida. Importante são os resultados. O que funciona é o correto. As coisas se legitimam ou não se tiverem sucesso. Juntamente a essa postura, encontramos o utilitarismo. Estou onde estou ou faço o que faço porque vejo nisso ou naquilo um senso de utilidade para alcançar meus fins e objetivos. Pessoas são usadas como meio para se atingir determinados fins. Essa é uma lógica que não se restringe ao campo dos negócios ou somente à esfera mundana. Infelizmente o espaço religioso está repleto de exemplos de pragmatismo e comportamentos utilitaristas.

Na verdade Jesus lidou com essas situações no seu tempo. As multidões afluíram em busca de sinais e do pão. Jesus percebeu que de repente sua popularidade havia crescido a ponto de quererem proclamá-lo rei (Jo 6.15), principalmente porque seria a garantia do pão (Jo 6.26). Em determinados momentos, ele tinha uma considerável audiência, a qual se retirava diante de uma palavra mais dura (Jo 6.67). Os que permaneceram até o momento da crucificação são uma evidência disso.

Por outro lado, a atitude de Jesus perante a multidão é ilustrativa. Se por um lado ele não se deixou impressionar com a multidão que lhe procurava, houve momentos em que, olhando para a multidão, foi movido de íntima compaixão, pois eram como ovelhas sem pastor, sem direção, sem alimento e sem proteção (Mt 9.36-38; 14.15), e passou a ministrar-lhes para o espírito e para o corpo. Jesus não era movido pelo aumento ou diminuição da sua audiência, mas sim por um compromisso inabalável em fazer a vontade do Pai.

A igreja moderna padece a mesma tentação diante da pressão para ser bem-sucedida. As comparações são inevitáveis e os pastores e a liderança, na maioria, sentem-se pressionados a mostrar resultados, principalmente os mensuráveis. Essa cobrança não se dá apenas de fora para dentro, mas vem de dentro de nós mesmos, até porque ninguém há que trabalhe sem esperar resultados.

Seguimos a Cristo e precisamos imitar suas atitudes. Ele estava comprometido em fazer a vontade do Pai. Sua missão era o anúncio da boa nova do Reino, mas também o chamado ao arrependimento, ao mesmo tempo que era sensível às necessidades dos seus ouvintes. Jesus nunca transigiu esses valores para não perder pessoas. O jovem rico é uma ilustração bem clara dessa sua postura.

NOSSA IDENTIDADE

Nosso desafio é o anúncio de todo o desígnio de Deus, sem deixar de discernir as oportunidades. Recentemente celebramos os 499 anos da Reforma Protestante. Um dos princípios mais lembrados da Reforma é “Só a Escritura”, como norma central e única para nossa fé e prática. Entendemos, sem espírito de arrogância, que o sistema doutrinário presbiteriano tem fundamentação bíblica consistente, que nossa forma de entender e aplicar as Escrituras não deixa a desejar, por isso mesmo não necessitamos de introduzir práticas ou expressões litúrgicas que fujam desses princípios simplesmente sob o pretexto de sucesso.

Na compreensão reformada acerca da igreja, a Palavra é central e decisiva. A igreja é criação da Palavra e por ela subsiste. A fé é resposta à Palavra. A vida da igreja deve ser guiada, nutrida, alimentada pela Palavra. Aquilo que não tem fundamento na Palavra não pode ser objeto da nossa fé, nem da nossa prática ou conduta. Esta é uma das heranças mais preciosas da Reforma Protestante, a redescoberta da centralidade da Palavra na vida da igreja. Quando a igreja subverte essa ordem, e a palavra de seres humanos ou líderes assume um caráter decisivo, obscurecendo a autoridade da Palavra, a igreja está correndo sérios riscos.

Esses princípios fazem parte da nossa identidade. Em um mundo confuso como o que nós estamos vivendo, muitas propostas e alternativas religiosas têm seus princípios validados não pela Escritura, mas pelo número de aderentes. O grande desafio é permanecer fiel aos princípios que herdamos ou, em nome dos resultados, aceitar qualquer que funcione. Por outro lado, a identidade é indispensável num mundo confuso. As pessoas estão cansadas de conceitos genéricos e indefinições. O nosso tempo requer da igreja clareza, definição, uma vez que a mensagem que as pessoas recebem é que tudo é relativo. A igreja não pode se sentir envergonhada de afirmar corajosamente suas convicções alicerçadas na Palavra, proclamando que o projeto de Deus para o ser humano não é uma alternativa, mas é a alternativa.

Desnecessário seria dizer que não há lugar na igreja ou pelo menos não deveria haver para atitudes utilitaristas, como a que mencionamos inicialmente. A vida cristã é um permanente chamado ao serviço e à entrega. Não se concebe a mentalidade do servir-se da igreja, usar a igreja e sua estrutura com essa finalidade. Interpelei uma pessoa que tempos atrás se aproximara da IPI, conseguira ser enviado ao seminário com o apoio da igreja local e presbitério, mas, pouco tempo depois da sua sonhada ordenação ao ministério, começara agora a pregar e ensinar doutrinas estranhas ao nosso sistema. Diante do meu questionamento cobrando coerência, ele candidamente respondeu: “Eu mudei...”. Tudo que ele queria era uma credencial como pastor, não importando os meios. Por outro lado, como são edificantes os exemplos de coerência, de entrega, de lealdade. Graças a Deus são mais abundantes que o caso acima.

A diversidade é saudável em qualquer ambiente. Essa é uma realidade desde a igreja dos primeiros tempos. Todavia, a diversidade de opiniões não é pretexto para a falta de coerência entre o que cremos, ou pelo menos declaramos crer, e o que pregamos e praticamos. Líderes confusos teologicamente geram ovelhas confusas. Sem uma identidade clara e sem uma compreensão nítida do que somos, do que cremos, quais são os nossos fundamentos, não teríamos condições de dialogar com os que divergem de nós, bem como de oferecer respostas às multidões que estão dispersas, como ovelhas que não têm pastor, e à mercê de aproveitadores.

Temos um bom sistema doutrinário e de governo. Temos uma bela história. Temos uma caminhada de compromisso na evangelização deste país, e a nossa tarefa é transformar todos esses fatores positivos numa mensagem que alcance as multidões e as conduzam ao senhorio de Cristo. Que Deus assim nos ajude!

Rev. Áureo R. Oliveira
Presidente da AG